Maria.
Gaby.
Maria Gabriela.
Minha menina.
Minha melhor amiga.
Minha confidente.
Meu tudo.
Hoje eu lhe escrevo como escrevi tantas vezes durante toda a minha gestação.
Antes mesmo de conhecer o seu rosto, eu já conversava com você através das palavras. E talvez Deus soubesse que, um dia, seriam novamente as palavras que sustentariam uma mãe diante de uma dor que nenhuma palavra humana consegue explicar.
Você foi a materialização de um milagre.
O meu milagre.
A criança que ensinou outra criança a ser mãe.
Minha menina, eu não compreendo tudo o que aconteceu. Não compreendo os caminhos pelos quais fomos conduzidos, não compreendo por que nossa história precisou atravessar uma dor tão profunda.
Há perguntas dentro de mim que talvez somente a eternidade consiga responder.
Mas existe algo que permanece intacto dentro do meu coração:
Deus continua sendo Deus.
E eu continuo crendo que nenhuma folha cai sem que Ele saiba. Nenhuma lágrima passa despercebida aos Seus olhos. Nenhum gemido da nossa alma é ignorado pelo céu.
A Palavra diz:
“Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido.”
Salmos 34:18
E é exatamente assim que estamos: com o coração quebrantado.
Mas não abandonados.
Dilacerados, mas sustentados.
Feridos, mas ainda debaixo das mãos daquele que conhece o princípio, o meio e o fim de todas as coisas.
Gaby, você me ensinou tanto sobre fé.
Ensinou-me sobre amor.
Sobre o amor verdadeiro, genuíno, fraternal. Sobre amar sem reservas, cuidar, perdoar, recomeçar, permanecer.
Falar de você nunca será simples.
São tantas qualidades, tantas lembranças, tantos detalhes seus que uma folha jamais conseguiria comportar tudo o que você representa.
Mas, se eu precisasse resumir quem você é, eu diria:
Você é filha do Rei.
Amada profundamente por sua família.
Escolhida.
Preciosa.
Uma princesa.
Uma carta viva escrita não apenas com palavras, mas com amor, fé, cuidado, intensidade e presença.
Minha menina, como toda mãe, se me fosse possível, eu teria colocado a minha vida no lugar da sua.
Mil vezes.
Mas também aprendi com você que fé não é apenas acreditar quando compreendemos.
Fé é continuar dizendo “Deus é bom” quando a nossa alma não consegue entender absolutamente nada.
É continuar segurando a mão de Deus quando todas as outras coisas parecem escapar das nossas mãos.
Hoje compreendo de uma maneira que jamais imaginei as palavras de Jó:
“O Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor.”
Jó 1:21
Não são palavras fáceis.
Não são palavras ditas por alguém que não sente.
São palavras que nascem no chão da dor.
E hoje, do chão da minha dor, mesmo chorando, mesmo com a alma ferida, eu também digo:
Bendito seja o nome do Senhor.
Porque a minha dor não apagará aquilo que Deus já fez.
A minha dor não anulará os milagres que vivi.
A minha dor não roubará de mim a lembrança de quem você foi.
E a minha dor não me fará negar a fidelidade de Deus.
Minha menina…
Eu te ouvi.
Eu ouvi a sua voz.
Eu ouvi você.
E continuarei ouvindo.
Essa frase ficará eternizada em mim:
Eu te ouvi.
Eu te ouvi.
Eu te ouvi.
E, em meio a tudo, existe consolo em saber que você também me ouviu.
Você me ouviu dizer que eu te amava.
Você me ouviu dizer o quanto eu tinha orgulho de você.
Você me ouviu dizer o privilégio que foi ser sua mãe.
Você ouviu que Samuel, o seu Muny, te ama.
Você ouviu o amor da sua família.
E isso ninguém poderá tirar de nós.
No sábado eu lhe disse:
“Que orgulho eu tenho de você. Que privilégio o meu ser sua mãe… e que privilégio da Maria Elisa ser sua filha.”
E hoje eu repito.
Maria Elisa conhecerá a mãe que ela TEM.
Ela saberá que sua mãe era amável, dedicada, caprichosa, talentosa, inteligente, esperta, amiga, companheira…
Mas, acima de todos esses adjetivos, ela saberá que sua mãe amava a Deus.
Contaremos a ela sobre você.
Falaremos do seu sorriso.
Das suas manias.
Dos seus sonhos.
Da mulher que você se tornou.
Do quanto você esperou por ela.
Do quanto você a amou antes mesmo de vê-la.
Maria Elisa crescerá sabendo que nasceu de uma história cercada de amor.
E onde minha memória alcançar, minha filha, sua história será contada.
Também jamais me esquecerei de como você amou verdadeiramente o seu marido.
Quantas vezes você me disse que, se pudesse voltar atrás, não teria procurado amor em outros lugares, porque o homem que Deus havia preparado para você era exatamente aquilo que tantas vezes você havia sonhado e pedido em oração.
Ah, minha menina…
Como eu vi você feliz nesses últimos anos.
Como eu vi seus olhos brilharem pela família que Deus lhe havia dado.
Quantas vezes você me dizia:
“Mãe, que presente Deus me deu! Que família é essa?
Você viveu o amor.
Você construiu memórias.
Você foi esposa.
Foi amiga.
Foi filha.
Foi irmã.
E tornou-se mãe.
Você viveu sonhos pelos quais um dia orou.
E isso também será parte do nosso testemunho.
Hoje, entretanto, eu atravesso a prova de fogo mais profunda de toda a minha existência.
Eu me despedi do seu corpo físico.
E não existe palavra capaz de explicar essa dor.
Minha alma grita.
Meu peito dói.
Meu coração procura você.
Existem momentos em que parece impossível prosseguir.
Mas eu preciso continuar.
Por você.
Por Samuel.
Por seu pai.
Por Maria Elisa.
Por Melqui
Por todos aqueles que carregam um pedaço de você.
E, principalmente, porque fiel é Deus.
Senhor…
Por que provaste o meu coração com uma dor tão profunda?
Por que permitiste que chegássemos a um lugar que jamais imaginávamos conhecer?
Pai, eu não compreendo.
Eu não consigo entender todos os Teus caminhos.
Mas, mesmo chorando, eu escolho confiar.
Não porque não dói.
Dói profundamente.
Não porque eu tenha todas as respostas.
Eu não tenho.
Mas porque conheço Aquele em quem tenho crido.
E se um dia minhas mãos escreveram sobre fé, hoje a minha própria vida precisará testemunhar aquilo que minhas palavras anunciaram.
Dias antes, Gaby me disse:
“A senhora precisa escrever mais…”
Minha menina, talvez você nem imaginasse a dimensão dessas palavras.
Por isso hoje, diante de Deus, com lágrimas sobre aquilo que escrevo, eu faço novamente aquilo que Ele colocou em minhas mãos.
Eu escrevo.
Escrevo para não esquecer.
Escrevo para testemunhar.
Escrevo porque ainda há fé no meio das lágrimas.
Escrevo porque ainda existe um Deus no trono.
Escrevo porque a morte não terá a última palavra sobre aqueles que estão em Cristo.
“O meu coração ferve com palavras boas… ao Rei consagro o que compus.”
Salmos 45:1
Ao Rei eu consagro esta carta.
Ao Rei consagro as minhas lágrimas.
Ao Rei consagro minha saudade.
Ao Rei consagro aquilo que ainda não compreendo.
E, mesmo atravessando o vale mais escuro da minha vida, quero que todos saibam:
a mão do Senhor continua sobre nós.
Estamos chorando, mas Sua mão continua sobre nós.
Estamos feridos, mas Sua mão continua sobre nós.
Há uma cadeira vazia, há uma ausência que dói, há perguntas sem respostas…
mas Sua mão continua sobre nós.
A bondade de Deus não terminou.
A misericórdia de Deus não terminou.
A fidelidade de Deus não terminou.
Nos dias em que não conseguirmos caminhar, Ele nos carregará.
Nos dias em que não conseguirmos orar, nossas lágrimas falarão.
Nos dias em que faltarem palavras, o Espírito Santo intercederá por nós.
E, dia após dia, continuaremos dizendo:
Até aqui nos ajudou o Senhor.
Minha menina, é muito difícil terminar esta carta.
Talvez porque uma mãe nunca esteja preparada para escrever uma despedida para uma filha.
Por isso eu não quero chamá-la de despedida.
É um até breve na eternidade.
Meu coração encontra descanso na esperança de Cristo, naquela promessa de um dia em que:
“Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima.”
Apocalipse 21:4
Um dia não haverá UTI.
Não haverá dor.
Não haverá medo.
Não haverá despedidas.
Não haverá mães com o coração dilacerado.
Haverá eternidade.
E até esse dia, continuarei carregando você comigo.
Na minha história.
Nas minhas palavras.
Nas minhas orações.
Em Maria Elisa.
Em Samuel.
Em seu pai.
Em Melqui.
Em cada memória que Deus nos permitiu construir.
Continuaremos sendo melhores amigas.
Continuarei sendo sua mãe.
Porque nem mesmo a morte consegue apagar aquilo que o amor escreveu.
Eu te ouvi, minha menina.
Eu te ouvi.
E jamais esquecerei a sua voz.
Eu te amo para além desta vida.
Eu te amo até a eternidade.
E enquanto eu permanecer aqui, continuarei testemunhando que, mesmo quando o coração não compreende os caminhos de Deus, ainda podemos confiar em Seu caráter.
Porque o Deus que celebramos nos dias de alegria continua sendo Deus no dia da nossa maior dor.
Você, Samu, seu pai e eu.
Uma família.
Um amor.
Uma história que nem a morte poderá apagar.
Até a eternidade, minha menina.
Eu te ouvi.
Eu te amo.
E ao Rei consagro o que compus.
Karla Montalvão








